Olá !!

... este é um espaço de exercício da escrita, sobretudo. A escrita, na plenitude do momento que dita a sua forma: Prosa, verso; Ou que dita o seu gênero, o seu tamanho, elasticidade, duração ou a sua emergência. A escrita que traga, de algum lugar, qualquer coisa que insista em existir ...

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Abraço de Águia !


sábado, 15 de agosto de 2009

Baghavad Gita - Capítulo IV

“ A VERDADEIRA NATUREZA DO ESPÍRITO”

“... Esta fraqueza, indigna de um homem, faz-te infeliz, pois te fecha as portas do céu”, diz Krishna cheio de amor, piedade e compaixão, para o confuso Arjuna reputado pela divindade como “ vencedor de inimigos”.

Mas Arjuna está , a seu modo, cego, eis que confuso; sem decidir-se, pois tem orgulho e piedade pelos seus vícios, aos quais ainda nutre respeito e apegos. Julga-se incapaz de lutar contra Bhishma e Drôna, que juntos representam uma aterradora e exímia força na arte da guerra ( Drôna é seu antigo professor das artes militares que luta ao lado dos Kuravas).

“Luta contra os Kuravas” – incita Krishna, pois sabe que vencer esta batalha é o modo para alcançar o Caminho da Luz. E instrui seu amigo sobre a natureza e a eternidade do Espírito que segue através de reencarnações (Palingenesia, do grego “Palin”, novo; “Genesis”, nascimento), utilizando-se de vários corpos durante a jornada de evolução.

Mais que isto, afirma: ” Sabe, ó príncipe Pându, que nunca houve tempo em que não existíssemos Eu ou tu, ou qualquer destes príncipes da terra; igualmente, nunca virá tempo em que algum de nós deixe de existir”, ensinando sobre a eternidade do verdadeiro ser que independe de seu corpo pois que é a expressão material do Uno Eterno.

Garante que, pelas faculdades mentais, os sentidos conferem “o sentimento do calor e do frio, do prazer e da dor. Mas estas mudanças vêm e vão, porque pertencem ao que é temporário, impermanente, inconstante. Suporta-as com equanimidade, valentia e paciência, ó príncipe! O homem que não se deixa mais atormentar por essas coisas, - que se conserva firme e inabalável no meio do prazer e da dor, - que possui a “verdadeira igualdade de ânimo: esse, crê-me, entrou no caminho que conduz à imortalidade.

Aquilo que é irreal, ilusório, não tem em si o Ser Real, não existe na realidade, e sim só na ilusão; e aquilo que é o Ser Real, nunca cessa de ser (...)” O corpo é transitório, enquanto o Ser é Eterno.

Ensina, pois, o Condutor dos corpos, como se obter o conhecimento para a condução dentro do caminho da imortalidade e da liberdade espiritual: Pela Yoga (União), como doutrina filosófica e prática da meditação, e através da escolha da reta ação nascida do reto pensar, que compreende a tomada da ação sob a indiferença quanto ao seu resultado, desprendida e acima das ilusões. O fazer pelo dever.

sábado, 18 de julho de 2009

CAPÍTULO 1 - "Baghavad-Gitâ" ´Parte III

A narração da história fica a cargo de Sanjaya, fiel partidário do rei cego, incumbido por transmitir os acontecimentos que ocorrem no campo de batalha dos Kurus, em tempo real, para o palácio aonde se encontram.


Os Pândavas empreendem marcha de guerra para retomarem Hastinapura, a Cidade dos Elefantes. Diante da iminente retomada, o palco militar resta montado. As fortes e largas falanges avançam em carros de guerra. O exército dos Pândavas estão armados com arcos e flechas e com os ideais de seus heróis, comandados por Bhima ou a Vontade Espiritual.

A simbologia indiana liga tais carros de guerra ao corpo; os cavalos, à mente quase sempre indomável e os condutores das bigas, simbolizam o espírito que anima o corpo.


Enquanto Arjuna tem Krishna como condutor de seu corpo e mente, devotando-lhe o respeito e a submissão tal qual deve a mente comportar-se em relação à Vontade Espiritual. Dhritarashtra, ou a personalidade relativa ao Eu Inferior, tem na figura de seu condutor um mero subalterno. Ao passo que o primeiro confia o seu propósito ao Superior que lhe guia efetivamente, o segundo jaz cego e passivo à contemplação na condição de mero ouvinte, distante e aflito em seu palácio que está sendo disputado no campo de batalha. Notamos que ao escutar a história, Dhritarashtra representa os sentidos diminuídos, cego e surdo, sem poder alcançar a mensagem divina que lhe é transmitida, julgando-se separado e alvo da cólera do Sagrado - o que lhe é próprio, em vista de sua cegueira e natureza egoísta.

Os arcos e as flechas remetem à busca de um alvo determinado. Os guerreiros pândavas são homens determinados, arqueiros treinados para atingirem seus alvos; técnicos que aplicam conhecimento em combate. Os guerreiros Kuravas, ao contrário, utilizam suas “armas favoritas”. Não compõem, portanto, uma unidade devotada ao aprimoramento técnico coletivo. Cada componente utiliza o que lhe favorece. Enquanto a estratégia de guerra destes últimos denota um exército centrado na experiência egoísta ou individual, a dos Pândavas traduz combatentes unidos, que adotam um sistema de guerra, pois compartilham do mesmo Ideal de conquista coletiva – “ Um por todos e todos por um”. A exegese da obra nos mostra que apenas as forças do Conhecimento – captado e trabalhado pelo intelecto para servir ao objetivo espiritual – são capazes de gerar os guerreiros e as armas DESTA guerra. “ Os “principais guerreiros”, para a luta entre o Eu Inferior e o Eu Superior.

Diante de tais forças, a materialidade se reconhece inferior à falange dos filhos de Pându que são puxados por cavalos brancos, o que significa que são movidos pela obediência pura e determinada às Leis do Espírito Eterno, pois as reconhecem determinantes de seus comportamentos. Cavalos são símbolos de força e obediência, enquanto que a cor branca se refere à pureza.

O mando militar dos Kuravas provém do velho general Bhishma (Terror), ao passo os Pândavas são liderados na batalha pelo heróico Bhima (Vontade Divina). Cada qual no seu grau máximo de suas motivações, diante da própria guerra. A obstinação, que auxilia do rei é quem toma o governo. Mas ela não pode governar, pois que é adjetiva. Substantivo é o homem, que está cego. Por isto, ao chegar a guerra ela se encontra sob Bhishma, que significa terror e egoísmo. Capenga, invertida, exercendo a função de comando que não é dela, a Obstinação voltada apenas a gerir o legado do prazer inferior ou material, tenta mas não pode governar a Cidade da Sabedoria. Deve pois, ser derrotada pelo Eu Superior.

O experimentado arqueiro Arjuna é um dos cinco príncipes Pândavas que, ao lado de seus irmãos e tendo como seu cocheiro o deus Krishna, a encarnação do “Criador, “possuidor dos corpos”, segundo os hindus, prepara-se para guerrear. O Terror dá o sinal de ataque, correspondido pelos Pândavas. Neste momento, Arjuna pede ao seu amado amigo Krishna que deixasse pairar o carro no espaço entre os dois exércitos, para ver de perto as pessoas que ali combateria. Vê, então, que estas eram todas suas familiares como primos, tios, sogros, amigos e mestre – os quais chama de “príncipes dos homens”, nos indicando a indecisão e os falsos julgamentos humanos. Invadido de horror e pesar, duvida se deve persistir na batalha. Neste momento Krishna responde-lhe para não abandonar, mas enfrentar corajosamente a batalha a ser vencida, contra os Kuravas.

O primeiro capítulo fixa a questão do valor e significado das ações humanas, tratando assim do Dharma pois discute a ética pelo conflito interno de Arjuna, confuso entre guerrear e renunciar ao combate.


Ao ser solicitado a narrar os acontecimentos, Samjaya começa descrevendo a atitude do Egoísmo (Duryôdhana) e sua verdadeira fome de poder. A seguir, narra o conflito de Arjuna que, puro e altruísta, indeciso sobre a ação a ser tomada, não enxerga razão e vitória na batalha e considera desertar em benefício da suposta paz entre os povos. Por isso aconselha-se com Krishna.

Este relato, ao invés de despertar no cego rei a mesma reflexão, fazendo-o compreender a ética demonstrada pelo talentoso arqueiro que se permitiu enxergar seus oponentes antes do combate, não foi suficiente para abrir-lhe a visão escurecida. Sequer aproveitar-se da dúvida de Arjuna, evitando sua própria derrota pressentida pela contagem das hostes inimigas, o cego foi incapaz, para ordenar a suspensão da batalha. A obstinação cega é incompatível com a razão. O exemplo de Arjuna é imprestável ao rei dos Kuravas, não inspira seu comportamento em direção à ética, à bondade, à audição do elefante. Por este motivo, Dhristarashtra merece ser derrotado. Enquanto Arjuna socorre-se de Krishna e avalia a submissão superior à justiça antes pretendida pelo combate por desejar o bem e nutrir o altruísmo; a Obstinação cega entrega-se à insensatez de lutar uma guerra perdida.

A reportagem dos acontecimentos demonstra que Krishna não sonega seus ensinamentos e age democraticamente. Transmite-os não apenas a Arjuna, mas ao rei inimigo dos Pândavas e, ainda, ao serviçal de casta inferior, Samjaya. Aliás, utiliza-se deste simbolizando que os valores materiais (a hierarquia do reinado) não tem significância alguma perante o Eterno que se manifesta segundo a Suas Leis e Vontade, desprezando as normas da materialidade, pois que esta não está Nele, embora Ele esteja nela.

Os Kurus reconhecem a árdua batalha e o exército dos Pândavas como composto por “guerreiros experientes e audaciosos”, comandados por um discípulo da Obstinação de Duryodhana.

Por isto, os Pândavas também são movidos por força igual, embora provinda de outro preceptor, o sábio filho do notável Drupada, rei de Panchada, uma antiga região ao norte da Índia. Uma Obstinação, portanto, vinda de outra origem do que a originada nas forças cegas das necessidades materiais é o que os determina à luta.

O “Baghavad-Gîtâ” descreve a luta interior entre o “Bem” e o “Mal”, o Eu Superior e o Eu Inferior, ocasionada pelo rompimento da Unidade do Homem e da Natureza. Arjuna, que leva um macaco, símbolo o Homem em desenvolvimento, que demonstra uma “nobreza” que na verdade ampara o cultivo das ilusões da seu Eu Inferior, pretende vencê-las mas, para isso, deve firmar seu propósito. Neste capítulo Arjuna é um guerreiro relutante que “deixou cair o arco e as flechas da sua mão, todo entregue à aflição e ao desespero que lhe consumiam o coração”. Enquanto isto, seu exército espera que ele brade e comece a disparar suas flechas, para entrar em franco combate. É fundamental a sua decisão, o despertar de sua vontade e a tomada da ação na batalha da luz contra as trevas.

As figuras do mito estão dentro do homem. Conhecê-los e detectá-los é o imperioso a cada um. Traçando-se um paralelo com a Constituição Septenária teorizada por muitas civilizações, podemos localizar as alegorias nos corpos, planos, degraus ou formas de expressão que compõe o homem.

Constituído o Eu Superior por Atma (Ser, Espírito ou Vontade Pura), Budhi (Veículo da Intuição) e Manas (Mente Pura), localizamos na primeira Hastinapura, no segundo Krishna e, em manas, os Pândavas.

O Eu Inferior, formado pelos componentes Kama Manas( Mente Concreta), Linga Sharira (Veículo Emocional), Prana Sharira (Corpo Vital ou Energético) e Stula Sharira (Corpo Étero-Físico), dominando a mente concreta está a Obstinação de Duryodhana sob a cegueira que acomete o corpo físico, etérico de Dhritarashtra. Representando o conjunto dos elementos do Eu Inferior está todo o exército de Kuravas.

Entre o Eu Superior e o Eu Inferior, localizamos Arjuna.

É necessário elevar-se acima dos corpos, desprender-se da terra como Arjuna pairando sobre o campo de batalha, para iniciar o combate.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

"Baghavad-Gîtâ" - Parte II

ANTECEDENTES DA BATALHA

Sendo o Baghavad-Gîtâ um texto contido no épico, nos conta o Maabárata que: Em Hastinapura, antiga capital do país, reinava Vichitraviría que desposou duas irmãs, mas faleceu sem deixar herdeiros. Obedecendo à tradição oriental daqueles tempos, o governo foi tomado por seu irmão Vyâsa, que se casou com suas viúvas e gerou dois filhos. O primogênito, Dhritarashtra, além de mais cem filhos gerou o mais velho Duryôdhana. Pându, segundo de Vichitraviría e irmão de Dhritarashtra, teve cinco filhos que mais tarde foram sagrados príncipes guerreiros e conhecidos como os cinco principais Pândavas.

Sobrevindo cegueira ao rei Kuru Dhritarâshtra, que passou a governar apenas nominalmente, o comando do reino ficou a cargo de Duryôdhana, que expulsou da Índia os filhos de Pându, seus parentes, os quais depois de aventurarem-se pelo mundo, voltam acompanhados de um poderoso exército e valiosas armas.

Para alcançar o cerne filosófico da Sublime Canção faz-se necessário o aprofundamento quanto ao significado das diversas figuras e personagens da história.

HASTINAPURA

Conhecida como a Cidade dos Elefantes, significa o alvo pretendido pelos guerreiros. O elefante, por seus olhos pequenos, orelhas grandes que remetem à capacidade de aprender e julgar, a priorização da recepção à emissão, o reconhecimento do “Só sei que nada sei”, socrático; além da sua excepcional memória, serenidade e bondade - pois diz-se que desviam das formigas -, tem características que, somadas à sua extraordinária força para eliminar os obstáculos, o tornam o animal o símbolo do homem sábio: Aquele que soma ao "elefante" a prática de virtude pelo conhecimento.

Hastinaputa é, pois, o estado de consciência superior no qual o ser se reconhece Homem-Divino apartado do que não seja o seu Eu Atemporal. Por este motivo, é o alvo, a objetivo dos Pândavas que se encontram em superior estágio de evolução espiritual do que os Kuravas.

VICHITRAVIRÍA

O nome do rei infértil significa “Poder de muitas espécies, multicor”. No contexto da obra, esta espécie de poder multifacetado e desvirtuado na vastidão da sua incoerência é enfraquecido no próprio poderio, porque é desprovido de um Ideal, é estéril. Suas duas esposas irmãs representam os caminhos da Verdade e das ilusões. Sem o foco ao Ideal transcendente, incapaz de frutificar tanto no campo do Eu Superior, como no do Eu Inferior, este poder encontra sua morte na Sabedoria, pois esta é o caminho que eleva o ser a partir da sua tomada de rumo à Verdade. Hastinapura não admite ser governada por este poder inferior. Vichitraviría, pois, precisa ser suscedido, o que ocorre por seu irmão, Vyâsa.

VYÂSA

Considerado ao mesmo tempo autor e personagem da saga, pois que é pai de Dhritarashtra, Vyâsa comunica ao próprio filho, através do serviçal Samjaya, não apenas o que se desenrola no campo de batalha mas, sobretudo, os próprios ensinamentos de Krishna. Este é um fato substancial que traduz e realiza a natureza divina que “permite” sejam seus ensinamentos transmitidos aos dois exércitos, simultaneamente – o que exprime a essência de Deus tornando possível reconhecer qual o Seu código de normas.

A percepção dos inimigos, determinada pelo grau evolutivo de cada qual, é o que faz a um engajar-se na difícil guerra e, ao outro, ao invés de render-se diante do reconhecimento de sua visível inferioridade, persistir na insanidade cavando sua derrota.

Vichytraviría, o poder decadente, tem como “irmão” o que significa “Agrado” ou “Prazer”, personificados em Vyâsa. Que vem como uma espécie de dádiva do próprio Espírito Eterno ao reino. O prazer toma do poder seus Caminhos e gera as personificações de cada um deles, os filhos Dhritarâshtra e Pându.

Vyasa mostra, com isso, que é essencialmente justo pois gera os opostos. Além disso, observamos que estéril era Vichitravería, poder corrupto e estagnado, não suas esposas.

DHRITARASHTRA e PÂNDU

Respectivamente, representa o primeiro a vida material, o instinto, o Eu Inferior e, o segundo, o Eu Superior, o elemento espiritual e o intelecto. Pându significa também “claro”, “pálido”, indicando que alva é a espiritualidade e, escura a materialidade.

O Instinto da materialidade gera, dentre seus filhos, a Obstinação de Duryodhana, o qual tem a qualidade de ser “dificilmente vencível”.

É evidente que este fato nos remete à enorme gama de atributos do homem. Em sentido transcendente explica o Deus que dota a sua expressão material de capacidades essenciais de superação e transcendência. Sendo a Obstinação (Duryôdhana) a primeira qualidade do homem - pois que o primogênito de Dhritarârashtra -, o compromisso individual de cada homem de alimentá-la, como a um filho, é o de torná-la apta para conduzi-lo a Hastinapura.

É instintivo do homem valer-se de sua obstinação. Ocorre que os apegos ao poderes e prazeres inferiores, como ao rei Dhritarâshtra, lhe cegam e sucede Duryôdhana que auxilia em seu governo. Esta passagem do mito afirma que: Cego o instinto, a derrocada do ser material se inicia quando a obstinação, arraigada apenas em suas necessidades, se lança à guerra desprovida de mente e espírito. Será morto cada guerreiro - o que mostra que o Caminho para a travessia está aberto a todo instante, mas não sem antes causar enorme pavor e destruição. Esta Obstinação aos apelos materiais, acabam por expulsar os Pândavas de seu reino, eis que são representantes dos elementos do Eu Superior.

No “Baghavad-Gîtâ”, a cidade está à beira da invasão. Insistentes no objetivo de conquistar o grau mais elevado do ser, superiores e com novos partidários retornam para a retomada, os cinco filhos de Pându.

OS FILHOS DE PÂNDU

Os filhos de Pându são banidos mas arregimentam um exército, se unem, avolumam suas as tropas com guerreiros de reinos vizinhos. São a excelência da capacidade intelectual e espiritual do homem, contida em seu Eu Superior.

ARJUNA

É o homem em evolução. Aquele já se dirigiu armado ao campo de batalha, para retomar o seu lugar, Hastinapura. O guerreiro que conhece a necessidade de subjugar os apelos do Eu Inferior mas que reluta, apegado às ilusões e aos vícios os quais ainda julga dignos de sobrevivência. Ele simboliza o Homem que ainda precisa comungar com a divindade para empunhar de uma vez por todas a sua espada. Ele é amigo de Deus. Já consegue estabelecer uma via direta de comunicação com a divindade. Conhece o Caminho. Tanto que seu cocheiro é Krishna – divina partícula da Essência Eterna. É à Divindade que Arjuna confia a condução de seu corpo e de sua mente pura (cavalos) (branco) obediente, simbolizada pelos carros de guerra conduzidos por cavalos brancos.

E a divindade é sua amiga. Deus, também por Seus Avatares (como Buda e Krishna. Algumas pessoas consideram também Cristo), se comunica com este homem, com Arjuna. O aconselha e estimula, explica-lhe sobre a sua natureza e a sua relação com a Unidade, e lhe direciona à vitória.

Arjuna é o homem em transformação que luta alado a príncipes guerreiros, interpretados como os atributos elevados de consciência e princípios de espiritualidade.

Exímio arqueiro, como descreve o “Mahabarata”, do exército das forças superiores, Arjuna é a representação do homem na vida (campo de batalha) do “Bem” e do “Mal”. O Filho da Alma (Kunti) contra os filhos das forças cegas da matéria, lutando contra os vícios, os apegos, as paixões, o egoísmo.

REIS, HERÓIS E GUERREIROS

Nas fileiras dos Pândavas são encontrada figuras da mitologia oriental mencionadas no Maabárata. Reis como Drupada e seus filhos; heróis como Bhima (terrível), guerreiros como Purujit, o “conquistador da cidade”, o próprio Arjuna, bem como são elencados os seus trunfos, generais e heróis que sempre representam forças, inclinações, atributos, artes, ciências e paixões que agem harmônicas com a Vontade Divina. As forças inferiores são representadas, por exemplo, pela citação de Brishma (Terror) ou o Egoísmo; Karna, talentoso arqueiro inimigo e posteriormente morto por Arjuna, representando o guerreiro desvirtuado ao mal; Kripa, guerreiro imortal designado professor dos príncipes no Mahabharata; Aswatthâman, outro imortal depois amaldiçoado por Krishna a errar por seis mil anos, acometido de hanseníase, como um detestado; Vikarna, Somadatti e outros que traduzem as forças seguidoras do egoísmo e da cegueira do instinto. (continua ) Paulo Gustavo

"Baghavad-Gîtâ" - Parte I



“BHAGAVAD-GÎT”

INTRODUÇÃO



Texto mítico de doutrina esotérica, escrito originalmente em sânscrito, entre os séculos II e V a.c., e crido como emanado diretamente de Sri Krishna – divindade glorificada pelos Vedas(Conjunto de textos sagrados) e considerada a maior expoente do conhecimento -, o “Bhagavad-Gîtâ” ( Sublime Canção ou Canção de Deus) é parte integrante do épico intitulado “Maabárata” ou “Mahabharata” (Epopéia hindu), o mais importante texto sagrado do hinduísmo, cuja autoria é atribuída ao imortal Vyâsa, o qual teria sido avô dos dois clãs envolvidos em combate, os Kuravas e Pandavas. Venerado como Escritura Sagrada pelos brâmanes(3), no contexto da religião hindu a obra é imensamente considerada também no budismo. A filosofia contida na Sublime Canção consiste no entendimento harmônico das doutrinas de Patanjali(4), Kapila(5) e dos Vedas, destinada ao homem desejoso de sua essência, que busca o Entendimento para alcançar a existência plena através de sua vitória na guerra entre o Eu Inferior e o Eu Superior. O “Bhagavad-Gîtâ” narra o diálogo entre Krishna e o arqueiro Arjuna, momentos antes da Batalha de Kurukshetra, cidade sob o domínio dos Kurus situada ao norte da Índia.
Na obra são transmitidos ensinamentos para a retomada e sustentação da realização espiritual, na trajetória humana de retorno à Unidade Divina, a compreensão de que o Um está presente em tudo.

O mito é a representação da batalha íntima e contínua que o Homem deve empreender para subjugar seus vícios e apegos da personalidade que lhe suprimem o foco essencial: Reconhecer-se como ser espiritual em jornada evolutiva para alcançar uma dimensão atemporal, através da reformulação interior direcionada pela prática da Virtude. O “Baghavad-Gîtâ” trata, pois, da emancipação humana através da reta-ação, escolha do Dharma, no mundo e estimula a reflexão a respeito do ser, fortalecendo os seus Pândavas para a aniquilação de seus Kuravas.

sábado, 25 de abril de 2009

Comprei a Jane Fonda.



Já estou na fase de falar "esse negócio" para as novidades virtuais. Do mesmo jeito que minha tia fala quando se refere a um aparelho de fax. Manda por "esse negócio aí pra mim, filho?". Antes eu falava até meio descolado Orkutch, Méssenger, Imeioul. Entrei no Twitter. E, na velocidade da luz, em meia hora eu obtive acesso ao universo dos beetlejuices cibernéticos, virtuais e quem sabe até quânticos ou sei lá mais o que.Aprendi o que é buytter. É um primeira-maozão de pessoas, a primeira vista. De perfis, vai. Você compra um perfil e o vende como em um pregão da Bolsa de Valores. Valem menos os mais óbvios, os normais. Os Souzas, Silvas,Nando,Leleca, Sabrina... desde que não seja a Sato, claro! Enfim, o povinho vale uma merreca. Os top's, uma verdadeira fortuna. Mas, por uma sorte do destino, eis que dentro das minhas humildes possibilidades de novatão, surge em impressionante oferta - que até me pareceu mercadoria de Puerto Stroesner-, nada mais , nada menos que a Jane. A Fonda, é claro. Não tive dúvidas. Duzentas pratas? Comprei a Jane Fonda e foda-se! Acabou com o meu crédito, mas já foi. Igual compra de celular:" Ah, eu mereço, né ?"





O problema é que a bichinha tá na prateleira. Encalhadaça. E eu nem sei da vida dela, mas, no meu twitter, valendo 441 pratinhas, ela tá encostada. É a vida!! Nem eu nem ela poderíamos, um dia, sonhar com essa situação. Ela no meu saldão. É Jane, tem dia que a noite é flórida... É a vida. Vendo uma Jane Fonda !! http://buytter.com/plogust

A CAUDA AZUL


Enquanto eu olhava o mar, sentado à margem e lutando com a brasa do meu cigarro que se consumia rápido e alheio à tonalidade romântica que eu tentava imprimir à cena, no meio do oceano percebi o mergulhar de uma enorme cauda, como um aceno magistral de um t gótico, com as extremidades encorpadas e cinza, o cinza próprio dos seres azuis marinhos.


Não tive tempo para transferir da mente ao corpo a reação surpreendida como uma pequena felicidade. Como se ergueu, emergiu. Pretendi fazer considerações sobre o surgimento, mas logo todas as ponderações possíveis se diluíram, laçadas pela surpresa – Que animal..., seria tão profundo o mar já naquele ponto que não me pareceu tão distante? Uma baleia que mais tarde se atolaria na areia ? – Esses pensamentos se esvaíram sem que eu os pudesse reter.


O sol recaía lentamente por trás de uma ilhota, mergulhando na nascente das ondas e o vento suspirava ao meu rosto, refrescando os meus cabelos. Vi meus pés e minhas unhas rachadas. Nenhum sentimento. Abandonei os pés e voltei-me ao mar.


A poucos metros um pescador levantou-se da areia em um salto. Retomou a vara fincada à margem e recolheu a linhada. Levei a mão às sobrancelhas para verificar o peixe rendido ao ar, entregue, sendo desenganchado. Com uma intimidade injustificada o pescador levantou seu peixe, arfante, em minha direção. Sem o que pensar, estendi-lhe exageradamente a mão, retribuindo-lhe um sorriso que eu não tinha. Temi por um instante a sua aproximação, talvez encorajado pelo meu gesto, mas ele plantou novamente a vara na areia e sentou-se, abrindo uma cerveja. Desviei o olhar antes que o homem consumasse o oferecimento de sua bebida e voltei-me para o mar.


Pensei em minha mãe. Embora metade do meu cérebro estivesse preocupada com o pescador, a outra se entregou a todos os passados, mesclando os sentimentos. Por um momento imaginei o lambari rendido comendo as suas cinzas e, agora, aquele senhor preste a fazer parte do, para mim lancinante, óbvio ciclo alimentar. Não. Talvez, preferi, de um só golpe poderia aquela baleia de cauda azul brilhante ter abocanhado todas as pequeninas partículas. Ou, mais dadivoso, tivessem a sorte de serem despejadas diretamente às bocas reluzentes de peixinhos mais dignos e corajosos.


Procurei o ponto onde há poucos meses estivemos todos, entre barcos simples e silenciosos, conduzidos por estranhos. Incólume. Nem sequer uma constante revoada de aves brancas sobre o local, uma simples faixa de sol destacada ou qualquer rastro de arco-íris a selar o ponto das cinzas. Afligi-me querendo outra vez a cauda talvez turquesa. Quis, definitivamente, lançar-lhe um olhar pedindo uma acrobacia, um mergulho, no ponto dos barcos, para enfeitá-lo e, ao mesmo tempo, desejei o peixe pendido do pescador. Saltei. Mas eles não mais estavam ali. Dei passos em direção aos metros que nos separavam mesmo constatando com o coração que haviam desaparecido ou mergulhado para dentro da vida. Repleta de casas, caminhos e anzóis. Impossível revê-los, o homem e o peixe. Olhei novamente os meus pés. E assim, com os dedos impressos nos olhos, passei a adentrar na lâmina espumante que vinha morrer na seara seca, até não mais vê-los. Ergui a cabeça e continuei caminhando como apenas quem vai, até sentir o sal molhado na boca.


Desejei beber a água. Bebi a água o quanto pude, sugando-a, voltado para o local das saudades com a certeza de que Deus me traria uma, uma partícula. Uma, era o que eu pedia, com o pensamento embotado de água e sal. Uma única cinza que se alojasse como bala no meu coração amargo e doce.


Sobre as pontas dos dedos senti o estômago pesado e a alma rompida. Mergulhei, tendo na mente a leveza da cauda azul, abocanhando todo o mar. Não havia saudade. Apenas a sua sede e fome. Em pensamento, o delicado gelo da cerveja do pescador eu também queria. Desejei abraçar o pescador e ser um peixe e todos os peixes que com suas bocas miúdas estiveram no banquete enfeitado de flores e refrescado pelas sombras dos barcos.


Onde está você, pescador? O mundo é tão imenso e eu não sei se você também mergulhou rumo ao infinito como a baleia e como eu. O mundo é tão grande... e é grande assim que, á medida que eu me aproximo, parece que o ponto adentra mais e mais em direção ao sol que agora é quase uma lembrança dourada. Longe..., já um adeus vermelho e misterioso.


Meus pés já não alcançavam o fundo sem que os meus cabelos emergissem a ponto de serem levados pela brisa das águas. As luzes das encostas começavam a salpicar. Luzes de casas ao entardecer. Pensei o quanto elas trazem assim, vistas do mar. E trazem tanto que, se detendo por alguns segundos em uma delas e depois fechando-se os olhos é possível ouvir o ruído esguichado da panela de pressão ao fogo, ver o meu entrar pequeno na cozinha branca com maçãs nos azulejos e ouvir o meu nome naquela voz ocupada e doce. Oh, meu Deus, o mar cheira a... carne com cebolas em tiras grossas, batatas inteiras cozidas com tomates, arroz com feijão fresquinho, ao alho... O mar cheira ao meu suor entrando em casa, com as bochechas vermelhas e os cabelos na testa. E como, Deus, o mar trás o gosto do rosto cansado que eu beijo e que se encaixa e beija o meu pescoço e depois, consertando o beijo, beija a minha face quente, pequena, redonda. É por isto que o mar é salgado.
Frio e quente é o mar. Igual àquelas mãos. Molhadas.Que eu retiro do meu rosto, por nada saber da vida, e que pronunciam o meu nome. É por isto que o mar é imenso. Como elas... Tão imenso que nem o meu coração poderia tê-lo inteiro. Enorme. Tão grandioso que além de ser maior que toda a terra deste mundo, é ele. O mar.


A cidade ressuscita e eu ainda quero a baleia negra, enfeitando com o seu mergulho, o local que me foge. Tudo é muito grande ! – gritei quando retornava – e eu aqui, ávido por estas luzes pequenas. Tão pequenas, secas e distantes que nem os meus olhos podem distinguir.


Molhei os cabelos gelados e duros e limpei as lágrimas, irrompidas do mar. A ardência que invadia incandescente fez-me apertar os olhos com os dedos dobrados e, talvez fosse um reflexo da noite, um mistério do mar ou um desses pensamentos que, feito vertigem, saltam à realidade, bem ali, ao centro do ponto das cinzas, airado como miragem, um arco-íris e, no intervalo de outro aperto dos olhos, a enorme cauda dourada e azul empinou. Parou no ar, esperando o meu juízo, e mergulhou sob a mais linda lua que eu já vi em toda a minha vida.

Plogust

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Menino Mosqueteiro


Menino Mosqueteiro

Eram meninos. Menininhos e menininhas, melhor dizendo. Pequenos, alegres e tristes, tímidos. Endiabrados, gulosos, sonâmbulos e estridentes ao sorrir e falar. Alérgicos, ridículos, amados e meninos. Iguais a esses que se encontram crescendo com graça pela vida e que estão sempre correndo, caindo, encantando e ensinando esperança.


Mas estes – como se houvesse diferença entre tais criaturas – eram tão meninos que até as meninas eram meninos, pois, naquela idade e naqueles mundos dentro daqueles olhinhos, eles permaneciam universais. Olhavam, uns aos outros, e encontravam a sua nação. A nação dos meninos. Nação de todos os hinos, todas as cores e nenhuma lei.


Revendo a fotografia encardida, salta à vista os traços deles. Traços cor de verde novo, como os jovens brotos orvalhados de capim, ao raiar do dia. Ao aproximá-la, saltam também os seus olhos – verdadeiras ameixas vivas e incrustadas naquelas vinte e poucas ou trinta faces; As bocas que engolem – no momento da foto – o riso quente da alma menina; As mãos, mãozinhas, que se prostram com a seriedade de um soldadinho de chumbo ao lado do corpo menino. Da foto, gritam em algazarra e,docemente, esticam as suas pernas, “pernicas”, que só sabem correr da surra, dos monstros, dos sapos, tartarugas e de todas as coisas boas da vida. Pernas que se cruzam ao chão sem cerimônia; Que se levantam e andam, correm e disparam rumo à vida e aos caminhos antes traçados somente por Deus.

É uma bela fotografia, sem dúvida. Vinte e poucas ou trinta promessas; Vinte e poucos ou trinta milhões de esperanças. São meninos vestidos de sonhos, pequenos príncipes e princesas que ainda têm em redomas as suas rosas, que ainda não partiram e aos quais a vida é um enorme pirulito. É lindo vê-los ali, lambuzados de vida e correndo, um atrás do outro, sobre o pirulito colorido.


Eu, eu olho a fotografia embaralhada, encontro aquele exato menino mosqueteiro e vou ao espelho. Pergunto aos olhos que também procuram o menino dentro dos meus e encontro uma menina triste. Ela é castanha, pequenina e sempre esteve ali. Ela me olha e se vê no centro do meu olho, e parte para buscar a menina do seu, me deixando só. No canto, as lágrimas acabam me convencendo de que o menino naufraga em seu barquinho em algum lugar bem atrás do meu olho, e eu sinto que ele luta. Por um momento o vejo com seus olhos de ameixa, aflito, apoiado em suas perninhas de barata, suando, suando muito em cima de seu barco de papel para retirar a água que inunda imperdoável, dura como pedra e louca para aniquilá-lo. Encontrei-o ! Não são lágrimas o que escorre sobre esta face desconhecida, são as águas do barco do menino que luta dentro dos meus olhos. Eu ajoelho diante do espelho e só posso chamá-lo de meu filho, meu amado menino mosqueteiro.

Retorno à fotografia encardida. Um, dois, três, quatro... Ali está ele ! Ali, bem em cima e ao canto esquerdo, com sua pose de Dom Quixote e pensando em seu Rocinante muito mais que em sua Dulcinéia. O meu menino mosqueteiro ! Sem dúvida é ele. “ Salta daí, menino! Que saudade...!” E ele salta. Eu beijo a fotografia. Ele devolve o beijo, dá uma piscadela inconfundível e galopa para o meu coração.


A todos os meninos e meninas mosqueteiros. Plogust